A discussão sobre ESG ganhou força e relevância nos últimos anos. Mas há um ponto que poucas empresas estão prontas para admitir: não há ESG se o “F” de financeiro não estiver saudável e se o “E” de estratégia não estiver bem consolidado. Muitas organizações têm pressa em montar um comitê ESG, porém se esquecem de fazer seus trabalhos financeiros, como: estruturar seu centro de custos e elaborar um planejamento orçamentário viável, com KPIs robustos e simulações de curto e longo prazos e estratégicos adotando uma visão sistêmica e ampla do negócio e de seu impacto nos steakholders.
O entendimento e a aplicabilidade de critérios ESG pelas empresas brasileiras está se tornando paulatinamente uma realidade. Atuar de acordo com padrões ESG amplia a competitividade do setor empresarial, seja no mercado interno ou externo. No mundo atual, no qual as empresas são acompanhadas de perto pelos seus diversos stakeholders, ESG é a indicação de solidez, custos mais baixos, melhor reputação e maior resiliência em meio às incertezas e vulnerabilidades.
Já ajudei empresas a elevarem eficiência operacional e estruturarem suas áreas estratégicas, financeiras e de custos com precisão, mas o que tem isso a ver com ESG? Tudo. A união entre finanças e estratégia é fundamental para a manutenção a longo prazo do planejamento e das ações de ESG.
Sem métricas definidas e assertivas, sem controles, certamente não haverá governança. Sem viabilidade financeira, não haverá impacto social. E sem uma saúde financeira sustentável, não será possível a redução dos impactos negativos no ambiente. Desde o mapeamento dos riscos e oportunidades socioambientais, às aplicações de medidas de governança é necessário garantir que os recursos financeiros e estratégicos sejam alocados com inteligência, previsibilidade e viabilidade.
Vejo empresas querendo avançar em governança e impacto social sem sequer terem garantia da sua saúde financeira e de terem uma visão estratégica de todo o processo. Quando a fundação não está sólida qualquer iniciativa ESG vira apenas marketing.
A maturidade organizacional e financeira de uma empresa são bases para a implementação de ações de ESG de forma realista e confiável. Por isso, conhecer a fundo os números de sua empresa, o impacto e a dimensão dos riscos que possam vir a ser enfrentados devem ser pauta constante dos conselhos, para que surpresas não muito positivas após o engajamento ESG venham a ser superadas de forma firme, consistente e inteligente.
Imagina o cenário onde horas/homem são dispensadas na elaboração de um planejamento maravilhoso de ESG, definindo metas, objetivos, mapeando riscos, o custo de mobilização de toda empresa em aplicação de planos de ação, de engajamento de todo o time, e no final do mês a constatação de que a iniciativa será paralisada por falta de caixa ou porque faltou engajamento da alta administração e o projeto morreu em menos de um mês. Além de não surtir o efeito de impacto positivo como é a proposta, a empresa ainda contraiu custo desnecessário e penoso para o momento.
A relevância da pauta ESG é inquestionável e deve ser tópico constante nas reuniões de alta direção, contudo, a necessidade de viabilidade financeira e estratégica desses planos é essencial para a eficácia da operação.
Trabalhei em uma indústria de manufatura familiar na qual o dirigente era extremamente ausente e se negava a suprir essa ausência com sua presença ou com a presença de terceiros, no entanto, seu sonho era ter um podcast que incentivasse profissionais da área, além disso, criar uma fundação para incentivar a arte e a cultura em comunidades carentes. Ideias fantásticas! Dispensou capital para construção da sala destinada ao podcast, chegou a abrir a fundação… contudo, tem mais de dois anos que o espaço para o podcast se tornou depósito, a fundação não saiu do papel, e ele está com problemas de saúde financeira por desconhecimento de seus custos. Ou seja, foram realizados gastos desnecessários por falta de planejamento e estratégia. Neste case, o pensamento estratégico foi totalmente invertido, em primeiro lugar, deveria ser trabalhada a questão estratégica de liderança, de descentralização de decisões e atividades, elaborado um planejamento financeiro robusto, com conhecimento de sua estrutura de custos para depois iniciar-se na pauta ESG.
Infelizmente, atitudes como estas são comuns no ambiente corporativo.
Existem ações de ESG que podem ser realizadas sem o impacto financeiro substancial; para essas ações, em geral o financeiro vê com bons olhos, no entanto, não devem ser passadas suas causas e consequências estratégicas. A partir do momento em que sua organização informa que respeita e apoia os direitos humanos, torna-se contraditório o aceite de assédio moral ou de descriminação de qualquer tipo sendo necessária a adoção de posturas mais severas em relação ao infringimento dessas máximas. E se foi o CEO que em algum momento teve uma atitude impensada e discriminatória? Como agir? Qual o impacto estratégico das sanções aplicadas? Ou seja, embora não tenha o envolvimento financeiro direto, a maturidade organizacional conta em muito para o sucesso da aplicação das ações de ESG, exigindo sim, uma mudança de atitude da empresa e um maior comprometimento estratégico e financeiro com a causa.
Nessa jornada de transformação entender as conexões entre seu negócio e as pautas ambientais, sociais e de governança são fundamentais, no entanto, a necessidade de se fazer o trabalho bem feito a nível estratégico e financeiro é decisor frente a esse desafio.